PARQUES DOS APARADOS DA SERRA E DA SERRA GERAL – REGISTRO DE UM DOS MAIORES EVENTOS VULCÂNICOS DO PLANETA

    Sempre que se fala em vulcanismo a primeira imagem que nos vêm à mente são os “clássicos” vulcões com formato cônico (Figura 1A) com lava a jorrar do seu interior. O que pouca gente sabe é que o estado do Rio Grande do Sul guarda o registro de um dos mais formidáveis eventos vulcânicos já ocorridos na Terra. Trata-se do chamado “magmatismo Serra Geral”. Mas, diferente dos abundantes eventos vulcânicos com os quais nos acostumamos a ver (ainda que pela televisão), aqui o diferencial foi que a lava extravasou na superfície através de grandes fissuras abertas na crosta terrestre (Figura 1B). 
Como Chegar

    A região dos cânions localiza-se na divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Cambará do Sul fica a cerca de 180 km de Porto Alegre, enquanto Praia Grande (município pertencente ao estado de Santa Catarina) encontra-se a 21 km da BR-101 e a cerca de 36 km de Torres, na divisa com o Rio Grande do Sul. 

    Pode-se chegar à região dos cânions saindo de Porto Alegre com destino a São Francisco de Paula via RS-020, passando pelos municípios de Gravataí e Taquara. Chegando a Cambará do Sul, utiliza-se a RS-427, estrada não pavimentada que liga este município até o Parque Nacional dos Aparados da Serra, onde está o cânion Itaimbezinho. Seguindo por essa mesma estrada e posteriormente utilizando a SC-450 chega-se ao município catarinense de Praia Grande, de onde se podem fazer passeios na parte interior dos cânions. Para chegar ao Parque Nacional da Serra Geral utiliza-se a RS-020 saindo de São Francisco de Paula até Cambará do Sul, e por fim utilizando estrada não pavimentada (CS-08) por 23 km se chega ao pórtico de entrada do parque (Figura 9).
    Tal evento teve início há cerca de 130 milhões de anos atrás devido à fragmentação do supercontinente Gondwana e a abertura do oceano Atlântico entre a África e a América do Sul (Figura 2). Como já se sabe, a noção que se tem de um encaixe quase perfeito entre as costas do Brasil e da África reside no fato de que os continentes sul-americano e africano estiveram unidos no passado geológico. Para se ter uma idéia da magnitude desse evento, basta dizer que as rochas geradas estão distribuídas por toda a região centro-sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais), estendendo-se além das fronteiras do Paraguai, Uruguai e Argentina, além do sudoeste do continente africano, ocupando parte da Namíbia, fato que confirma a anterior união desses continentes.
    Todo esse registro está representado em dois parques nacionais: o Parque Nacional da Serra Geral e o Parque Nacional dos Aparados da Serra, no limite entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Figura 3). Ambos possuem como principal atrativo um sistema de cânions (vales com paredes altas e verticais) que apresentam o Bioma Mata Atlântica e são considerados unidades de conservação federal, inseridas na região conhecida como Campos de Cima da Serra, caracterizada pelas florestas de araucárias. Os mais famosos cânions da região são o Cânion Fortaleza, que possui 7,5 km de extensão e altitude máxima de 1.157 m acima do nível do mar, e o Cânion do Itaimbezinho, formado por escarpas muito bem encaixadas, possuindo 5,8 km de extensão com 720 m de altura (Figura 4).
    Quando se tem a fragmentação de um continente e a posterior abertura de um oceano o que ocorre é o extravasamento do magma para a superfície, dando origem à lava, que tão logo entra em contato com o ar se resfria e solidifica, gerando, em linhas gerais, uma rocha de cor escura e aparência homogênea conhecida como basalto (Figura 5). 
    No sul do Brasil, a principal unidade geológica onde estas rochas se inserem chama-se Formação Serra Geral, tendo basaltos em 95% da área coberta por rochas vulcânicas, ainda que existam outras de composição química mais ácida (riolitos e riodacitos) na região dos Aparados da Serra. O basalto apresenta a mesma composição da crosta oceânica (que forma o fundo dos nossos oceanos), sendo uma rocha originada a partir do manto terrestre e extremamente densa. Esta relação nos ajuda a compreender o porquê da geração dessas rochas durante o processo de fragmentação de um supercontinente e a conseqüente abertura de um oceano. Já as rochas de composição mais ácida, que ocorrem na região dos Aparados da Serra, apresentam a mesma origem dos basaltos, entretanto, o magma que deu origem a elas incorporou na sua composição química diversos elementos da crosta continental, que forma os nossos continentes.

    Com o passar do tempo geológico, e com a consequente abertura do oceano Atlântico, diferentes derrames foram se sobrepondo, representados por diferentes “pulsos” de lava vindos diretamente do manto terrestre, em grande profundidade. Os geólogos contabilizam 13 desses pulsos (derrames de lavas) nas escarpas do cânion Fortaleza. Cada um variando de 15 a 55 metros de espessura. Os derrames de lava seguem certo padrão, que pode ser caracterizado na Figura 6. 

    Mas o que realmente fez com que fossem formados os incríveis acidentes geográficos que temos nesses dois parques foi a atuação de um fator principal: erosão fluvial. Com o constante trabalho de rios sobre a rocha, após 100 milhões de anos (procurando as fraquezas e fraturas da mesma), ocorreu o desgaste destas ao ponto de se criarem profundos vales, formando os cânions. Nos períodos geológicos posteriores, toda a região da Serra Geral acabou sendo soerguida por eventos de origem tectônica.

    Quando ocorreu esse extravasamento de lava a maior parte do estado do RS estava coberta por um imenso deserto conhecido como deserto Botucatu. A lava ao entrar em contato com os sedimentos (areia) acabou preservando os imensos campos de dunas existentes neste deserto, bem como as estruturas internas que caracterizam as mesmas. Em algumas regiões próximas aos cânions se podem observar rochas areníticas abaixo e entre as camadas de rochas vulcânicas, comprovando a interação entre o deserto e o evento vulcânico que se seguiu (Figura 7).
Importância geoturística

    No âmbito geoturístico, os Parques Nacionais dos Aparados da Serra e Serra Geral estão inseridos na Proposta de Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul. Este projeto compõe a área de 19 municípios, dentre os quais, quatro gaúchos e quinze catarinenses. Este trabalho foi executado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) durante os anos de 2010 e 2011, e teve como objetivo o cadastramento de geossítios da região que compreende a zona litorânea e serra, na divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Figura 8).

    O conceito de Geoparque foi criado pela UNESCO e tem como finalidade o aproveitamento e divulgação de sítios de importância científica, gerando, para tanto, a preservação do patrimônio geológico, atividades econômicas e desenvolvimento sustentável para as regiões alvo. Ações no sentido de conscientizar e educar as comunidades locais para o reconhecimento e divulgação desse patrimônio devem vir acompanhadas no que concerne à criação de toda a estrutura do parque. As comunidades locais estão mobilizadas em prol do geoturismo através da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (AMESC) e do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Região dos Campos de Cima da Serra.
Leitura Recomendada

GODOY, M. M.; BINOTTO, R.B.; WILDNER, W. 2011. Proposta de Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul. CPRM – Serviço Geológico do Brasil.

ROSSATO, M.S.; BELLANCA, E.T.; FACHINELLO, A.; CÂNDIDO, L.A.; SILVA, C.R.; SUERTEGARAY, D.M.A. 2003. Terra – Feições Ilustradas. Editora UFRGS. 264 p.

WILDNER, W.; FILHO, V.O.; GIFFONI, L.E. 2004. Excursão Virtual aos Aparados da Serra. CPRM. 90 p.