A PLANÍCIE COSTEIRA SUL – REGISTRO DA ÚLTIMA ERA DO GELO NO RIO GRANDE DO SUL

    Quando observamos pela primeira vez a parte sul do litoral do Rio Grande do Sul, entre os municípios de Rio Grande e Chuí, notamos como principal elemento da paisagem a presença de diversos cordões litorâneos, lagoas e vastos campos de dunas, características melhor observadas em imagens de satélite (Figura 1). A região é caracterizada por diversos atrativos naturais: em um itinerário de aproximadamente 200 km pela beira-mar (na maior parte do tempo solitário) é possível observar pontos como o navio Altair (naufragado no inverno de 1976) e o farol do Albardão, além de diversos animais marinhos como baleias, tartarugas e leões-marinhos (Figura 2).
    Ao fazer uma viagem nessa região se consegue notar sua incrível beleza, bem como o seu isolamento (Figura 3), já que as cidades mais próximas ficam a cerca 200 km uma da outra. A região, portanto, acaba se tornando alvo para muitos aventureiros que querem dar um tempo da correria do dia-a-dia e dos grandes aglomerados urbanos, já que possui somente algumas casas de pescadores, alguns faróis (muitos deles destruídos) e o sempre constante vento a castigar quem pretende desbravá-la.
    Mas o que esse recanto isolado do estado, com seus campos de dunas e lagoas, têm a nos dizer, geologicamente? Esta planície arenosa possui depósitos sedimentares (local de acumulação de qualquer material inconsolidado: areia, argila etc.) conhecidos como sistemas laguna-barreira (cada um representa um “pulso” de subida e descida do nível do mar ao longo do tempo geológico) (Figura 4). Os depósitos laguna-barreira são constituídos de barras arenosas que isolam corpos lagunares, geradas pelo transporte de sedimentos ao longo da linha de praia (processo conhecido como deriva litorânea, cuja direção dominante na costa do RS é de nordeste para sudoeste, resultado do famoso “Nordestão”). 
    Os sistemas do tipo laguna-barreira representam cada um, como já foi dito, um ciclo de variação do nível médio do mar. Esses sistemas são denominados I, II, III e IV (ocorrendo do mais antigo ao mais novo, respectivamente). O sistema laguna-barreira III corresponde aos depósitos gerados durante a queda do nível médio do mar na última era do gelo (há cerca de 120.000 anos atrás) e o sistema laguna-barreira IV à linha de costa atual (Figura 5A).

    Mais ao sul da região, próximo à fronteira com o Uruguai, podem ser encontrados fósseis atribuídos a mamíferos com idades entre 11,8 mil e 1,8 milhões de anos, além de acumulações de conchas (os famosos Concheiros), na beira da praia (Figura 5A e 5B). Estas acumulações formam-se através do retrabalhamento de antigos depósitos fossilíferos pelas ondas do mar como, por exemplo, aqueles do Sistema Barreira-Laguna III. Na beira da praia, próximos à Praia do Hermenegildo, ocorrem também depósitos lagunares de turfas, gerados pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal que posteriormente poderiam dar origem ao carvão (Figura 5D).

    A quantidade de fósseis nas margens do arroio Chuí (depósitos pertencentes ao Sistema Laguna-Barreira III - Figura 5C), no extremo sul do estado, também é diversa, com destaque para a presença de preguiças gigantes (megatérios), tatus gigantes (gliptodontes), toxodontes (comparáveis em tamanho e forma aos rinocerontes) e tigres dentes-de-sabre, todos pertencentes à paleomegafauna que viveu na paisagem do Rio Grande do Sul (Figura 6). 
Como Chegar

    Para fazer a visitação dos locais descritos acima se pode sair de Porto Alegre (Figura 7) utilizando-se a BR-116 em direção ao município de Pelotas (distante 260 km). Após, segue-se pela RS-471 em direção a Santa Vitória do Palmar, distante 240 km. Tendo o município de Santa Vitória do Palmar como base, se pode visitar a lagoa Mirim (7 km), lagoa Mangueira (30 km) e a Reserva Ecológica do Taim (entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar) - a mais importante reserva ecológica do Rio Grande do Sul, composta de pântanos com fauna e flora típicas. 

    Na parte histórica se pode visitar a Igreja Matriz (fundada em 1855, época da fundação da cidade), o Theatro Independência e o Museu Cel. Tancredo Fernandes de Mello, com sua exposição de material arqueológico e paleontológico coletado na região.

    Quem deseja se aventurar pela região litorânea pode-se conhecê-la saindo da praia do Hermenegildo (distante cerca de 18 km de Santa Vitória do Palmar), ponto de partida para se conhecer os Concheiros e o restante do inóspito litoral sul.

    Outra alternativa seria sair de Porto Alegre com destino ao município de Pelotas, posteriormente indo via BR-392 até o município de Rio Grande. Daí se percorre 24 km até a praia do Cassino, começando o passeio por essa região até o extremo sul, no município de Chuí.
Leitura Recomendada

RIBEIRO, A.M.; BAUERMANN, S.G.; SCHERER, C.S. (Org.). 2009. Quaternario do Rio Grande do Sul - Integrando conhecimentos. Monografias da Sociedade Brasileira de Paleontologia, 272 p.

LOPES, R.P.; BUCHMANN, F.S.C.; CARON, F.; ITUSARRY, M.E.G.S. 2005. Barrancas Fossilíferas do Arroio Chuí, RS - Importante megafauna pleistocênica no extremo sul do Brasil. In: WINGE, M.; SCHOBBENHAUS, C.; BERBERT-BORN, M.; QUEIROZ, E.T.; CAMPOS, D.A.; SOUZA, C.R.G.; FERNANDES, A.C.S. (Edit.). Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Publicado na Internet em 31/10/2005 no endereço http://www.unb.br/ig/sigep/sitio119/sitio119.pdf