OS VIOLENTOS EVENTOS GEOLÓGICOS QUE ORIGINARAM O ESCUDO SUL-RIOGRANDENSE (REGIÃO DE LAVRAS DO SUL)

    É difícil imaginar a grandeza dos eventos geológicos envolvidos na construção do Escudo Sul-rio-grandense (que apresenta as rochas mais antigas do Estado – Figura 1). Nosso escudo apresenta o registro de diversas colisões continentais ao longo de aproximadamente 1,5 bilhões de anos, similar (em termos geológicos) à colisão entre a Ásia e a Índia que originou os Himalaias em tempos mais modernos. Estas sucessivas colisões alimentaram um processo conhecido como acresção continental, em que porções de crosta continental são “coladas” à núcleos crustais mais antigos, através do choque entre placas tectônicas. Em nosso Estado, o núcleo mais antigo de crosta continental é o chamado “Terreno Gnáissico (gnáisse = rochas metamórficas bandadas) Santa Maria- Chico”, sendo gradualmente acrescido por terrenos significativamente mais jovens no sentido leste. Mas afinal, quais são as evidencias desses processos de colisão, uma vez que as cadeias de montanhas geradas foram erodidas ao longo do tempo geológico, restando apenas suas “raízes”? (Figura 2)
Como chegar

    Saindo da capital, Porto Alegre, utiliza-se a BR-290 e posteriormente a BR-392 em direção ao município de Caçapava do Sul. Partindo de Caçapava pela RS-357 se vai até o município de Lavras do Sul. Para visitar o Cerro Mantiqueiras deve-se utilizar a RS-357 (Lavras do Sul – Bagé) partindo do município de Lavras do Sul, posteriormente tomando estrada secundária (Figura 7). Ambas as estradas não possuem asfalto e, estando o cerro, a 15 km do centro de Lavras do Sul.
    Obviamente, as evidências encontram-se espalhadas por todo o escudo do RS, mas uma área é esclarecedora do ponto de vista didático: o Ofiolito Cerro Mantiqueiras. Tratase de um cerro alongado na direção leste-oeste, composto por rochas ultra-máficas (de origem do manto terrestre), associadas a um fragmento de crosta oceânica que existia entre 900 a 600 milhões de anos atrás. Por se tratar de um ofiolito (conjunto de rochas características do assoalho oceânico), o Cerro Mantiqueiras (Figura 3) é um fragmento de crosta oceânica comprimido entre dois blocos distintos de crosta continental, um mais velho, ao sul do ofiolito, e outro mais jovem, ao norte (Figura 4). Sendo assim, o local representa uma zona de sutura, relacionada à colisão de dois núcleos continentais distintos (Figuras 4 e 5). Essa colisão ocasionou o fechamento do oceano existente entre eles, deixando como resquício apenas um fragmento de crosta oceânica.
    No que concerne aos tipos de rocha que formam o Cerro Mantiqueiras, além dos harzburgitos (Figura 6A) mencionados anteriormente, ocorrem xistos (rocha metamórfica foliada – Figura 6B) nas suas porções periféricas. A composição destes xistos também é ultra-máfica (ou seja, são compostos por minerais de origem do manto) e, tanto a sua foliação como suas dobras (Figura 6C e 6D), evidenciam a atuação de fenômenos tectônicos colisionais na sua formação. Além disto, nos harzburgitos ocorrem asbestos de serpentina (explorados na mineração para a obtenção de amianto, utilizados como isolante térmico e acústico– Figura 6E), que embora não apresentem uma concentração que seja economicamente explorável na área aqui descrita, evidenciam a importância das zonas de colisão entre blocos continentais distintos na prospecção de diversos bens minerais.
    Difícil entender? Também achamos! Então, a pergunta que devemos nos fazer é a seguinte: como rochas características do fundo marinho foram parar dentro do continente, a quase 400 km de distância do, atualmente, mais próximo oceano? Esse fato só pode ser explicado através da colisão entre blocos continentais distintos e separados por um oceano, através da atuação da tectônica de placas (movimentação das placas tectônicas) em um período de milhões de anos. Sendo assim, com apenas um ponto, podemos ter uma ideia geral dos violentos processos geológicos que atuaram na construção do Rio Grande do Sul como o conhecemos hoje.
Leitura Recomendada

HARTMANN, L.A. e CHEMALE-JR, F. 2003. Mid amphibolite facies metamorphism of harzburgites in the Neoproterozoic Cerro Mantiqueiras Ophiolite, southernmost Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências 75 (1)

REMUS, M.V.D. 1990. Geologia e geoquímica do Complexo Cambaizinho, São Gabriel – RS. Porto Alegre, UFRGS, Tese de Mestrado, 60 p.

WILDNER, W. LOPES, R. C. 2010. Evolução geológica: do paleoproterozoico ao Recente In: A.C. Vieiro e D.R.A. Silva (orgs), Geodiversidade do Estado do Rio Grande do Sul. Programa Geologia do Brasil – Levantamento da Geodiversidade, CPRM. Porto Alegre, 13 p.