TORRES – MORROS TESTEMUNHOS E SUA HISTÓRIA GEOLÓGICA

    Se observarmos com atenção o conjunto de rochas que constituem os morros existentes à beira mar no município de Torres (Figuras 1 e 2), podemos visualizar a interação entre dois eventos marcantes e de grande escala na evolução geológica do estado do Rio Grande do Sul. 

    O primeiro evento está registrado nos arenitos quartzosos (rocha sedimentar rica em quartzo) observados na porção inferior do Morro das Cabras e Morro do Farol. 
Leitura Recomendada

ELIAS, A.R.D. 1999. Estratigrafia de Seqüência e Proveniência das Rochas Eopermianas da Bacia do Paraná na Região Centro-Oeste do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. São Leopoldo, RS, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, Dissertação de Mestrado, 2 v., 182 p.

MILANI, E.J. 1997. Evolução Tectôno-estratigráfica da Bacia do Paraná e seu Relacionamento com a Geodinâmica Fanerozóica do Gondwana Sul-Ocidental. Porto Alegre – RS. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, 2 v., 255 p.

PETRY, K.; ALMEIDA, D. del P. M.; ZERFASS, H. 2005. O Vulcanismo Serra Geral em Torres, Rio Grande do Sul, Brasil: empilhamento estratigráfico local e feições de interação vulcano-sedimentar. Gaea, 1(1): 34-45

SCHERER, C.M.S. 1998. Análise estratigráfica e litofaciológica da Formação Botucatu (Neocomiano) no Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS. Tese de Doutorado. Instituto de Geociências – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 208 p.

WILDNER, W. et al. 2006. Geologia e Petrografia. In: Brito et al. Geologia e Recursos Minerais do Sudoeste do Estado do Paraná. CPRM-MINEROPAR, 94 p.

WILDNER, W.; RAMGRAB, G.E.; LOPES R. da C.; IGLESIAS, C.M.F. 2008. Mapa Geológico do Estado do Rio Grande do Sul, escala 1:750.000. Porto Alegre : CPRM.
    Esses arenitos (Figura 3) podem ser reconhecidos por apresentarem estruturas internas características, em geologia chamadas de estratificações, e que são de grande auxílio na interpretação dos mecanismos de transporte e deposição de sedimentos. As estratificações nesses arenitos são dos tipos cruzadas e plano-paralelas (embora essas últimas apareçam mais raramente nesse local). Para a melhor compreensão do leitor, podemos usar como análogo atual para a geração das estruturas mencionadas, a formação de dunas eólicas (Figura 4) nos desertos e zonas costeiras ao redor do mundo, que o visitante pode ver no litoral do Rio Grande do Sul na própria região de Torres.
    Com base nessas evidências os geólogos conseguem dizer como eram os ambientes do passado. Nesse caso, foi possível correlacionar estes depósitos de dunas antigas à formação de um imenso deserto (esse antigo deserto é chamado de Deserto Botucatu), que cobriu uma parte expressiva dos atuais continentes sul-americano e africano, entre o final do período Jurássico e o início do Cretáceo (entre 205 e 133 milhões de anos). Além de atestar que esta parte do planeta estava submetida a um clima muito árido, é o testemunho da união da América do Sul e a África no supercontinente Gondwana (Figura 5).

    A esta altura o leitor deve estar se perguntando: isto quer dizer que África e América do Sul já estiveram unidas no passado? A resposta para esta indagação vem dos estudos geológicos. Não apenas os arenitos de Torres, mas muitas outras evidências, que procuraremos mostrar no website Georoteiros, mostram que sim, os dois continentes já estiveram unidos. 

    Neste ponto entra o segundo evento que discutiremos e que também está testemunhado nas rochas dos morros de Torres. Sobre as areias inicia-se uma nova fase do cenário geológico mundial. Com a ruptura do Gondwana – iniciada a partir de esforços de deslocamento e quebra da crosta continental, há cerca de 152 Ma - se inicia a separação entre África e América do Sul. O alargamento gradativo entre estas duas massas de terra, abrirá um espaço que será mais tarde invadido pelo mar e originará o Oceano Atlântico.

    Geologicamente, o que se segue à separação de duas grandes massas continentais é a geração de um vulcanismo de composição básica, ou seja, a formação de uma rocha ígnea conhecida como basalto (Figura 6). A ruptura e separação do Gondwana, durante o Cretáceo Inferior, foi acompanhada por um expressivo evento vulcânico que cobriu a porção centro-sul da América do Sul e o noroeste da Namíbia, formando a Província Ígnea Continental Paraná-Etendeka, uma das maiores províncias vulcânicas de basaltos de platô do planeta (Figura 7). 

    O que se deve ter bem claro é que, no tipo de vulcanismo ocorrido aqui, não houve a formação de um cone vulcânico, mas sim o aparecimento de diversas fissuras na crosta, permitindo a liberação do magma para a superfície. Os magmas de baixa viscosidade gerados por esses processos, formaram “lagos de lava” que, devido à perda de calor em direção às bordas do derrame (contração devido à diminuição do volume), à subida de gases para o topo do derrame (mesmo fenômeno observado ao se abrir uma garrafa de refrigerante) e ao atrito da base do derrame com o substrato, apresentam estruturas características. Estas estruturas (Figura 8) podem ser vistas em todos os morros testemunhos das praias de Torres, sendo constituídas em: base de derrame com disjunções (fraturas) tabulares, devido ao atrito diferencial do derrame com o substrato; centro de derrame com disjunções colunares, devido à contração e diminuição do volume durante o resfriamento; topo de derrame rico em voláteis, devido à subida desses gases para o topo do derrame.
    O que se deve ter bem claro é que, no tipo de vulcanismo ocorrido aqui, não houve a formação de um cone vulcânico, mas sim o aparecimento de diversas fissuras na crosta, permitindo a liberação do magma para a superfície. Os magmas de baixa viscosidade gerados por esses processos, formaram “lagos de lava” que, devido à perda de calor em direção às bordas do derrame (contração devido à diminuição do volume), à subida de gases para o topo do derrame (mesmo fenômeno observado ao se abrir uma garrafa de refrigerante) e ao atrito da base do derrame com o substrato, apresentam estruturas características. Estas estruturas (Figura 8) podem ser vistas em todos os morros testemunhos das praias de Torres, sendo constituídas em: base de derrame com disjunções (fraturas) tabulares, devido ao atrito diferencial do derrame com o substrato; centro de derrame com disjunções colunares, devido à contração e diminuição do volume durante o resfriamento; topo de derrame rico em voláteis, devido à subida desses gases para o topo do derrame.
    Todo esse grandioso episódio está maravilhosamente representado na divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, conhecida como Região dos Cânions do Sul. Lá ocorrem 13 derrames vulcânicos sobrepostos, em alguns locais alcançando a profundidade de centenas de metros de espessura. Os morros testemunhos de Torres são nada mais do que prolongamentos remanescentes dos derrames observados na Formação Serra Geral.

    É necessário ter em mente que durante os primeiros estágios do magmatismo Serra Geral, o paleodeserto Botucatu ainda era uma sistema deposicional ativo (haviam dunas formadas por areia inconsolidada – que ainda não tinham virado rochas), sendo a interação entre a lava e a areia inconsolidada inevitável. Desta forma, diversas estruturas de interações entre as lavas e as areias foram formadas, e elas podem serem observadas nos morros de Torres: depósitos de arenito preenchendo fraturas nos basaltos (diques clásticos de preenchimento) ou mesmo “cortando” parte de um derrame basáltico (diques clásticos de injeção); fragmentos de basalto imersos no arenito sem estruturas – peperito (rocha gerada por explosões hidromagmáticas) e uma série de outros fenômenos derivados do contato entre um fluxo de lava e sedimentos inconsolidados e geralmente úmidos, nesse caso as areias do paleodeserto Botucatu e estrias de fluxo (devido ao fluxo de lava sobre a areia inconsolidada) produzindo contatos arenito/basalto (Figuras 9 e 10). 

    Além de registrar dois eventos sucessivos importantes (Formações Botucatu e Serra Geral) as interações vulcano-sedimentares aflorantes no município de Torres podem ajudar a elucidar se o Paleodeserto Botucatu era inteiramente seco, ou se continha alguns depósitos úmidos entre as dunas, responsáveis pela geração dos peperitos. Porém, este ainda é um assunto sujeito e intensas discussões na comunidade geocientífica. O fato inegável é que a paisagem do RS, à época de formação dessas rochas e estruturas, era radicalmente diversa da atual, podendo-se considerar como análogo atual ao paleodeserto Botucatu, o Deserto do Saara.

Como  chegar

    O município de Torres dista 175 km da capital Porto Alegre, localizado no litoral do Estado do Rio Grande do Sul. As principais vias de acesso se dão pela BR-290 (Free-Way) e pela Estrada do Mar (RS-389). Pode-se chegar, também, pela BR-101. Ambas as rotas estão indicadas em vermelho no mapa abaixo (Figura 11).