OSÓRIO – INTERAÇÃO ENTRE SERRA E LITORAL

    A região onde está o município de Osório apresenta a transição entre a encosta rochosa, formada por rochas vulcânicas da Formação Serra Geral e arenitos (que no passado geológico foram dunas) do antigo Deserto Botucatu, localizados na base e interagindo com áreas mais planas compostas por sedimentos da Planície Costeira do estado do Rio Grande do Sul (Figura 1). O principal atrativo natural para quem chega a primeira vez na região é o Morro da Borússia, com altitude máxima de 400 m e relevo caprichosamente esculpido pela natureza. 
    A base do Morro da Borússia é constituída por arenitos (rochas sedimentares da Formação Botucatu). As rochas deste deserto são constituídas por grãos de areia depositados e compactados no sentido da corrente do vento sobre um plano mais inclinado, formando estruturas cruzadas na rocha. Por ter este tipo de estrutura e com grãos praticamente de mesmo tamanho, pode-se interpretar o local como um antigo campo de dunas eólicas (Figura 2). A paisagem do paleodeserto Botucatu pode ser comparada à de várias partes do deserto do Saara, onde existem extensos campos de dunas, caracterizando um ambiente muito seco (Figura 3).
    Há aproximadamente 130 milhões de anos atrás, no período Cretáceo (Figura 4), a paisagem desértica então existente foi recoberta por um grande volume de lava. Tal vulcanismo englobou o centro sul do Brasil, noroeste do Uruguai e Argentina e o sudeste do Paraguai, por mais de 1.000.000 km2, o que constituiu num dos maiores episódios vulcânicos de todos os tempos (Figura 5). Os basaltos no Morro da Borússia são o testemunho desse incrível episódio.
    A maioria dos vulcões apresenta cones vulcânicos, mas as lavas deste vulcanismo percolaram através de fraturas e fissuras na crosta terrestre, até atingirem a superfície, caracterizando o vulcanismo fissural. As rochas vulcânicas que integram este extenso conjunto de tipos rochosos estão agrupadas geologicamente sob a denominação de Formação Serra Geral. São constituídas na sua maioria, por basaltos, mas também é possível observar outros tipos de rochas vulcânicas (riolitos e riodacitos) provenientes das atividades vulcânicas citadas acima. Como as condições desérticas ainda existiam quando as lavas recobriram o Deserto Botucatu, as formas de muitas dunas foram completamente preservadas (Figura 6).
    A planície observada a partir do mirante no Morro da Borússia representa o testemunho de dois dos quatro eventos de deposição de sedimentos relacionados a subidas e descidas do nível do mar, registrados na Planície Costeira do RS. Esses quatro eventos são denominados como Sistemas Laguna-Barreira I, II, III e IV. A região avistada do mirante contempla os sedimentos dos sistemas III e IV.

    O sistema III está associado ao penúltimo evento entre glaciações (interglacial) que ocorreu há cerca de 125 mil anos atrás, durante o Pleistoceno. Seus depósitos se estendem de maneira quase contínua desde o litoral norte do RS (região de Torres) até o extremo sul (Chuí). 

    O sistema IV vem sendo formado desde 5 mil anos atrás até os dias atuais. No início de sua deposição o nível do mar estava de 2 a 4 metros acima do atual. Na área de Osório esse sistema é representado principalmente por alguns campos de dunas e pela laguna de Tramandaí, que consiste no “funil” de escoamento para o mar de toda a rede de drenagem da região. 

Como chegar

    Conhecida como a Terra dos Bons Ventos, o município de Osório está situado no litoral norte do Rio Grande do Sul, localizado cerca de 95 km de Porto Alegre via BR-290 (Estrada General Osório - Free Way). Neste município existe uma elevação que se realça na planície costeira, o denominado Morro da Borússia. A principal subida para esse morro se dá pelo km 98 na BR-101. A subida até o topo do morro é de 4 km, com estrada asfaltada e bem sinalizada. (Figura 7).

    Ao término da subida do Morro da Borússia há um trevo. Seguindo a esquerda por mais 2 km chega-se ao mirante, onde se encontra a rampa para saltos de vôo livre (Figura 8).

    A partir do mirante do Morro da Borússia, em dias de tempo bom, pode-se observar a região do município de Osório, as praias da região (Tramandaí e Imbé), as lagoas circundantes, o maior parque eólico da América Latina e, mais ao fundo, o Oceano Atlântico, que está a uma distância de aproximadamente 24 km (Figura 9). 
    Ao término da subida do Morro da Borússia, no trevo, seguindo em frente, chega-se a uma estrada não pavimentada, com 10 km de extensão, que passa por várias chácaras até chegar à Propriedade Rural da Cascata (Figura 10), a uma altitude de cerca de 400 m. A entrada custa aproximadamente R$ 3,00 por pessoa, onde se pode usufruir de uma boa infra-estrutura, quedas d’água e piscinas naturais. Há vários pontos para banhar-se ao longo do rio, com profundidades variadas.
Leitura Recomendada

ÁREA de proteção ambiental (APA) de Osório: Morro da Borússia. Osório: FETEC/UFSM. 1995. 187 p.

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