CERRO PALOMAS – REGISTRO DE DOIS DESERTOS E PEGADAS DE DINOSSAURO: O CARTÃO DE VISITAS DE SANTANA DO LIVRAMENTO

    Quem viaja em direção à fronteira integrada entre Brasil (município de Santana do Livramento) e Uruguai (município de Rivera) observa uma elevação conhecida popularmente como Cerro Palomas (Figura 1), que se destaca na paisagem e que contém importante registro de um passado muito distante.
Como chegar

    A partir do topo do Cerro Palomas, pode-se contemplar a exuberante vista da região (Figura 8). Esta elevação está situada na porção oeste do Rio Grande do Sul, a cerca de 490 km de Porto Alegre seguindo as rodovias BR-290 e BR-158 (Figura 9A). 

    O Cerro Palomas está localizado a aproximadamente 20 km do município de Santana do Livramento, no km 556 da BR-158 (Figura 9B). O melhor caminho para chegar ao topo do Cerro Palomas é seguindo uma precária estrada não pavimentada, localizada na encosta oposta a BR-158 (Figura 9C).
    A importância geológica do Cerro Palomas se dá por sua geomorfologia em forma de mesa e por representar um morro testemunho de dois antigos desertos arenosos (paleodesertos). As feições arenosas no topo, constituído por arenitos eólicos do Paleodeserto Botucatu, possuem encostas convexas, demonstrando um estágio avançado da erosão, ao passo que os sedimentos subjacentes do Paleodeserto Guará mostram encostas retilíneas a côncavas, o que sugere um estágio menos avançado de erosão (Figura 2).
    Para buscarmos o entendimento do porque esta elevação, em forma de mesa, ficou preservada, devemos entender as rochas que a sustentam. As rochas dos dois paleodesertos foram preservadas por processos geológicos ao longo de milhões de anos, que transformaram suas areias, gerando assim arenitos. Os grãos que formam esses arenitos foram depositados e compactados sobre planos inclinados (estratificação cruzada) no sentido das correntes de vento que atuavam na região naquele tempo (Figura 3). Estas características também são observadas nos ambientes desérticos atuais, desta forma os geólogos analisam as rochas e conseguem inferir sobre os processos que ocorreram em ambientes pretéritos.
    As rochas do Paleodeserto Guará estão encobertas pela vegetação e ocorrem por toda a área do Cerro Palomas, não sendo o fator chave para a preservação deste cerro. As rochas que resistiram parcialmente ao desgaste provocado pelo tempo (erosão e intemperismo) são as rochas do Paleodeserto Botucatu, que sustentam o topo do cerro. Para comprovar esta afirmação, deve-se levar em conta a historia do Paleodeserto Botucatu.

    Há aproximadamente 131 milhões de anos, durante o período Cretáceo, enquanto o Paleodeserto Botucatu era depositado em uma ampla área do continente sulamericano (Figura 4), ocorreu um grande extravasamento de lavas (Vulcanismo Serra Geral).
    O Paleodeserto Botucatu foi totalmente recoberto por rochas vulcânicas basálticas, que extravasaram na superfície por meio de grandes fraturas originadas durante a separação entre os continentes Sul-americano e Africano. A lava, em alta temperatura, fundiu as areias ao entrarem em contato. Possivelmente, na área do Cerro Palomas, uma fina, mas resistente camada de arenito fundido tenha preservado esse cerro da erosão causada principalmente pela chuva, sol e ventos. Ainda hoje é possível observar fragmentos de rochas basálticas (rochas mais rígidas e de cor escura) dispersos no topo do Cerro Palomas.

Na trilha do dinossauro

    Na área do Cerro Palomas, há aproximadamente 161 milhões de anos, durante o período Jurássico (Figura 5), havia outro antigo ambiente desértico conhecido como
Paleodeserto Guará, preservado em rochas (Formação Guará) que afloram nas regiões oeste e central do Estado.
    Próximo ao cerro, a Formação Guará está representada, da base para o topo, por uma sequência de rochas interpretadas como dunas eólicas, interdunas úmidas (com pequenos corpos de água entre as dunas) e sedimentos depositados em ambientes lagunares, os quais são recobertos por novas dunas.

    Nas rochas pertencentes à Formação Guará é possível observar registros de traços fósseis (icnofósseis), representados por escavações simples e de pequeno tamanho produzidas por invertebrados terrestres (Figura 6A) e pegadas de dinossauros saurópodes (Figura 6B), em uma área próxima ao Cerro Palomas. As escavações registradas teriam sido produzidas por organismos semelhantes às minhocas atuais. Nas áreas úmidas entre as dunas é possível observar o registro de esteiras microbiais (representados por depósitos gerados pela união de grãos minerais e microrganismos fotossintéticos), que sugerem a presença de pequenos charcos de água, corroborando para as interpretações deste antigo ambiente deposicional.
    Geossítios jurássicos contendo restos ósseos de dinossauros são muito escassos no Brasil. No Rio Grande do Sul o principal motivo dessa escassez foi à deposição em condições áridas do Paleodeserto Guará; entretanto se conhece um abundante registro de pegadas e traços fósseis. Esses registros permitem entender melhor como viviam, os animais extintos, como, por exemplo, determinar a velocidade e o modo de caminhar de grupos específicos, estimar o tamanho e o peso dos animais e, possivelmente, inferir se a área que contém as pegadas era uma rota migratória.

    As pegadas existentes na área estudada são todas arredondadas, sem marcas de dedos, e estão presentes em rochas interpretadas como interdunas úmido (Figuras 7A e 7B). Estudos realizados na área indicam que a trilha preservada tem sentido de leste para oeste, e relacionam estas pegadas às patas traseiras de um dinossauro do grupo dos saurópodes, sugerindo, através da morfologia e tamanho das mesmas, que este saurópode seria maior (em tamanho corporal) que um elefante atual.

    Os saurópodes possuíam corpos enormes e tinham a região da bacia semelhante aos répteis atuais, sua alimentação era essencialmente vegetariana.
Leitura Recomendada

DENTZIEN-DIAS, P.C.; SCHULTZ, C.L.; BERTONI-MACHADO, C. 2008. Taphonomy and paleoecology inferences of vertebrate ichnofossils from Guará Formation (Upper Jurassic), southern Brazil. Journal of South American Earth Sciences, 25(2): 196-202.

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Preservação do Patrimônio

    Devido aos riscos de degradação, através de atividades agropecuárias e pela proximidade da estrada, a comunidade local esta mobilizada buscando preservar as pegadas registradas na área estudada. As pegadas ainda são tema de debate na comunidade científica. Ainda assim, a preservação do local é de grande importância para novos estudos, motivo pelo qual não é divulgada neste texto a sua precisa localização.